Vasco Pulido Valente tem quase sempre razão, e, mais uma vez, não falha. Podemos não gostar de Sócrates. São perfeitamente legitimas as críticas que tem sido dirigidas ao nosso primeiro-ministro. Se há falcatruas no aparelho do Estado estas tem de ser investigadas. Sócrates deve ser escrutinado permanentemente sobre os seus actos. Há o dever de cidadania em querer apurar a verdade. Mas para tudo isto há limites. Não cabe ao cidadão comum julgar com base em informações dispersas e pouco precisas. Sócrates foi eleito democraticamente. Não vale a pena por em causa o regime, somente com base em suspeitas. Apesar da importância que tem a investigação face oculta, esta parece estar a desviar as intenções para o essencial. Devemos ter em atenção que Sócrates continua a governar (mal), e damos pouca atenção ao que o primeiro-ministro tem feito. Estamos todos um pouco ofuscados com a face oculta, mas esta investigação, não resolverá os problemas do país, não nos ajudará (seja qual for veredicto) a sairmos da crise.
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11/21/2009
11/18/2009
Tropa de Elite
O filme Tropa de Elite, realizado por José Padilha, é o mote perfeito para abordar a toxicodependência. O filme revela o prisma mais pernicioso do vício, o gerador de violência. Vender estupefacientes pode ser um negócio lucrativo, mas é insidioso para todos. Tropa de Elite revela tudo isto de forma magistral. Primeiro, apercebo-nos nos perigos do tráfico, depois percebemos que que dependência alimenta a violência. Portanto, o acto de comprar e consumir drogas não é inocente e inócuo. O consumo pode ter sido despenalizado, mas os proveitos do consumo continuam a alimentar uma máquina criminal, apelando pessoas para o ilícito. Perante este problema, as autoridades, simplesmente, não podem fechar os olhos perante o consumidor. É preciso resolver o problema pela raiz que o provoca: o consumo. Podemos apetrechar as forças policiais na rua, mas enquanto houver lucro é impossível parar o tráfico, deste modo a melhor forma de combater a violência e marginalidade associada ao tráfico é refreando o consumo, com políticas de acompanhamento e apoio. Fechar os olhos nunca é solução.
11/17/2009
Caminhos ínvios
Nunca pergunto o caminho a ninguém, gosto de me perder. Adoro caminhos ínvios. Tenho um mau sentido de orientação e aproveito isso ao máximo. Só saí do país uma vez, num InterRail, estive em Berlim, Paris, Amesterdão, Istambul, Atenas, Nápoles, Bucareste, Budapeste, Roma e Barcelona (por esta ordem). Lembro-me particularmente de me perder em Berlim. Aqueles parques, o pórtico de Berlim, o arcanjo dourado que aponta para Paris (segundo me foi dito), todos aqueles monumentos que relembram o passado prussiano. Os turcos, os alemães, as alemãs...Fui afectuosamente encaminhado por uma alemã, que suponho chamar-se de Amber, ela falou-me do muro, das feridas da Alemanha, do modo como este país ergueu-se depois da guerra. Depois fomos a um bar conhecer os amigos dela. Fui muito bem recebido, sem grande alarde, com simpatia e boa disposição. Fiquei particularmente impressionado com os temas de conversa, não eram banais, havia um pormenor que me encantou: as referências. Quando se tem uma conversa, devemos ter referências, sejam estas cinematográficas, literárias, musicais, ou do quotidiano. Aqui usa-se mais as de quotidiano, mas naquele lugar, em Berlim, eram mais as cinematográficas. Mencionar Thomas Mann ou Wolfgang Becker é muito diferente de usar as vivências pessoais de beltrano e sicrano para contextualizar. Existe uma certa cultura nisto, e, talvez, isto seja apenas mais um sinal de atraso no nosso país.
11/13/2009
Sócrates
Metade do país não suporta Sócrates, e se olharmos para o parlamento, é mais de metade. Não sei se Sócrates é um infortunado ou um afortunado. Podemos ver as coisas de duas perspectivas. Por um lado temos um Sócrates que permanentemente está envolvido em casos estranhos, que envolvem corrupções, negócios ilícitos e práticas menos ortodoxas. Sócrates já foi acusado de ornamentar o currículo com informações falsas, de fazer exames ao Domingo, de estar associado ao caso Freeport, e agora ao caso Face Oculta. E ainda há aqueles casos que não mencionei. Sócrates, no entanto, parece sair luminoso de cada uma destas situações, como se não fosse nada com ele. Ou são cabalas, ou equívocos, ou familiares interesseiros, nada disto parece ser suspeito, são apenas infortúnios que calham ao homem, e que o bando dos seus detractores aproveita-se para minar a sua autoridade e legitimidade que foi concedida pelo voto dos portugueses. Os socialistas defendem acerrimamente Sócrates, mesmo quando as evidências são cada vez mais sonoras. Aqui é o lado afortunado do nosso primeiro-ministro, Sócrates tem hostes devidamente convencidas da primazia e idoneidade do líder. Sócrates poderá ser um mau primeiro-ministro, todos sabemos do fracasso na justiça, do infeliz resultado com os professores e do estado da economia e das finanças. Tudo isto parece pouco importante para os seus apoiantes.
Sócrates apesar de ser um mau primeiro-ministro não vai ser lembrado por isso. Estou convicto que apesar disto tudo, Sócrates tem razão num ponto. O casamento entre pessoas do mesmo sexo será, na minha opinião, uma das poucas coisas bem feitas por este governo socialista. Será no futuro um marco importante e muitos não esquecerão que foi Sócrates que tornou isso possível. É pena que a direita não compreenda isto.
11/12/2009
Referências
Henry Kissinger afirmou que o poder é o derradeiro afrodisíaco. O poder fascina, o poder é tudo. Quando li o Diplomacia deste mesmo autor, fiquei com a impressão que a história é feita por grandes homens, que com o seu cunho marcaram gerações, que figuras como Richelieu, Bismarck ou Churchill mudaram a história de forma indelével. Há quem concorde com Kissinger, o respeito por uma figura, é directamente proporcional à sua influência e poder, estas pessoas podem ser altas figuras do estado ou do mundo empresarial, e quanto mais poderosas são, mais respeito impõem. Conheço pessoas que já foram Cavaquistas e agora já não são. Enquanto Cavaco foi sinónimo de poder, ele foi respeitado, agora que ficou demonstrado que não consegue influenciar o resultado de umas eleições legislativas, perdeu o charme, e não passa de um provinciano. Talvez isto seja um sinal dos nossos tempos. Figuras como Soares, Cavaco e Sá Carneiro (os políticos mais relevantes da nossa democracia), podem ainda manter alguns aficionados, mas já perderam o brilho, e com isso a consideração. Se assim é, para onde nos podemos virar quando precisamos de referências?
11/10/2009
Face Inculta
Eu questiono-me como pessoas como Armando Vara colocam-se nestas situações. Todos sabemos das cumplicidades de Armando Vara, das suas amizades, ou contactos privilegiados, com altas figuras do estado e do sector empresarial, dos seus cargos importantes na banca e dos privilégios inerentes a isto tudo. Apesar destas prerrogativas Armando Vara não se coibiu de se imiscuir em negócios obscuros com sucateiros. Será isto meramente corrupção? Estou convicto que não. Há aqui uma ganância que em última análise pode ser considerada de provinciana. Este senhor, ao fazer estas tristes figuras, ilustra bem o atraso das nossas elites, que mesmo com o mundo aos seus pés, não deixam de ser uns medíocres e ignorantes.
Um processo mediático não é um julgamento, pese embora, o nome dos envolvidos fiquem irremediavelmente associados a corrupção e actos ilícitos. O caso face oculta é disso exemplo, a montanha poderá parir um rato, mas mesmo que nenhum dos arguidos seja declarado culpado, a suspeita permanecerá um fardo para estes.
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