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12/08/2009

O encontro

Pela primeira vez o Sr. X ganhou coragem para falar com a Sra. Y. Foi preciso um grande fôlego, muitos ensaios a olhar para o espelho, onde foram testadas mil e uma abordagens, umas subtis variações de uma conversa perfeitamente normal, outras, digamos assim, abordagens experimentais e pouco ortodoxas. Claro que o Sr. X achou por melhor não arriscar nada de muito exuberante ou excêntrico. Afinal ele era um homem respeitado e respeitável. Conhecido por ser um brilhante contabilista, recebeu vários prémios cujo mais famoso e invejado foi uma piza Margarita servida no ilustre estabelecimento do Sr. Vito Corleone. O Sr. X, para alem de ser contabilista, possui igualmente um negócio de lavandarias que tinham a peculiaridade só lavarem roupa branca. Isto durante muito tempo levantou suspeitas junto das autoridades fiscais e judiciais devido ao facto de ser comum certos negócios, como as lavandarias, serem utilizados para lavagem ou branqueamento de capitais. Todas estas suspeitas revelaram-se infundadas e foram liminarmente abandonadas quando o Sr. X decidiu conceder um desconto de 50% na lavagem da famosa roupa interior e peúgas brancas do presidente do governo regional.
O encontro com a Sra. Y dar-se-ia num domingo de inverno ao jantar num famoso restaurante funchalense. Tanto o Sr. X como a Sra. Y estavam impecavelmente vestidos para a ocasião, no entanto, este encontro não poderia ter sido mais desastroso. No momento preciso em que se encontrou com a Sra. Y, o Sr. X só conseguiu balbuciar palavras começadas por B, e a única compreendida pela Sra. Y, foi a palavra "beringela". Isto provocou uma apoplexia na Sra. Y dado que beringela era o apelido que tinham-lhe impingido no secundário por esta se ter apaixonado pelo o filho de um produtor de beringelas. Como as pessoas podem ser tão cruéis e invejosas, especialmente aquelas que não se apaixonam por filhos de produtores de beringelas!

12/07/2009

O Velho

Costuma-se dizer que andam por aí os velhos do Restelo. Associa-se rapidamente a velhice a decrepitude, a senilidade e ao atavismo. Não existe nadir mais pungente que a velhice, pese embora, caminhemos para uma sociedade de velhos, hoje, mais do que nunca, glorificamos a juventude, mesmo que a juventude esteja pejada de ignorância, confusão ou intolerância. Conheci um velho que quebra todos os arquétipos que temos da vetustez. Segundo aquilo que ele me disse deveria ter mais de noventa anos, nasceu nos primeiros anos da segunda década do séc. XX, sobreviveu à segunda grande guerra e à guerra do ultramar, esta última onde participou. Conheceu meio mundo, especialmente o mundo lusitano: Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde e Goa. Também visitou outras paragens na Europa e em África. Está desiludido com este mundo onde subsiste o egoísmo e a vacuidade, mesmo assim, sente-se com sorte, porque os filhos e os netos o acolheram aqui na Madeira, mesmo não precisando deles para quase nada, confessou-me que eles são importantes para sua lucidez. Falamos pouco mas pressenti (e invejei) a sua capacidade de comunicar. Aquele velho parecia usufruir da vida mais do que eu, era mais expressivo do que eu, seus olhos faiscavam uma vitalidade contagiante. Quando lhe entreguei o talão do depósito e despedimos-nos, agradeceu-me e desejou-me um resto de dia feliz.

12/06/2009

Uma mulher e um amigo meu…

Aquela sensação de perda, por muito que tentasse a obliterar, era aguda. Ir as compras, o conforto das amigas íntimas e o convívio familiar serviam para abstrair-se um pouco, mas a sua mente não deixava olvidar o João. Tinham namorado pouco menos do que três anos, mas foram os melhores anos da sua vida. Claro que no inicio foi tudo um pouco por acaso, ele convidou-a para sair, ela não tinha grandes expectativas mas gostou dele e lentamente foi crescendo a paixão e o amor. Apesar desta última palavra nunca ter sido pronunciada por ambos, havia ali amor. Um amor geralmente terno e meigo, mas que por vezes transformava-se em sedenta paixão. O João manifestava o seu amor numa base regular mas sem grandes exageros, o que era adequado para ela. Quando ele sentia necessidades mais lascivas conquistava o corpo dela sem ambiguidades e entregavam-se os dois a uma intensa sensualidade. Tudo isto agradava a ela porque João era o amante ideal mas sem ser um pinga-amor.

E agora João abandonou-a. Como era isto possível? Dizia ela para si própria. Será que ele trocou-me por outra? Como foi ele capaz de fazer isso? Realmente não foi só ela que ficou estupefacta, as amigas, os pais dela e dele, os amigos dele, todos ficaram um pouco aturdidos com o terminar daquele namoro. Eram o casal exemplar. Ela era bonita e espirituosa, muito melhor que Joana, a ex-namorada dele, que o traiu com um amigo comum. Parece que a vida dele tinha se endireitado de vez. Ambos tinham completado a licenciatura juntos, e parecia tudo tão bem encaminhado. Mas João partiu para Lisboa sem avisar ninguém, ficou lá duas ou três semanas, quando voltou terminou o namoro, sem grandes justificações ou desculpas. Foi até um pouco brusco, o que não era de todo uma sua característica.

A vida perante os reveses parece inevitavelmente injusta e a sensação de injustiça conduz a revolta. Mas naquele momento não havia nada que ela pudesse acusar o João. Durante o tempo em que estiveram juntos até o rompimento da relação ele tinha sido quase perfeito e embora não houvesse mais nada a fazer do que aceitar o sucedido de cabeça erguida, o que ela queria, ao menos, era uma explicação. Mas como obter uma explicação se ele não queria sequer falar com ela? E mesmo que ele quisesse falar com ela havia outra questão: a humilhação de se dirigir a ele. A relação entre ela e João também baseou-se no pressuposto de que ela era o elemento mais devoluto e resoluto, ela sempre pensou se aquilo acabasse seria sempre pela iniciativa dela e não dele. Mais um motivo para que a acção do João fosse ainda mais incompreensível.

O tempo passou mas aquela dúvida, ou melhor, aquela exigência de compreender o sucedido recresceu ao ponto de provocar insónias. As noites eram, para ela, particularmente difíceis, era consumida por rememorações dos bons momentos passados com João e cada dia que passava a frustração crescia até ao dia que encontrou um antigo amigo, o Carlos.

Carlos foi o primeiro amante dela. A primeira vez que fizeram amor, tinha ela quinze anos e ele dezoito, desde então em certas ocasiões que se encontravam trocavam alguns piropos e algumas piadas privadas e, embora só tinha acontecido duas vezes em oito anos, iam para cama. Sempre que ela se encontrava particularmente vulnerável, Carlos era o ideal encosto. Carlos possuía uma auto-confiança infinita, «capaz de mover montanhas» segundo ela, era também um excelente conversador e bem-humorado. Foi através de Carlos que ela descobriu a resolução do dilema que a consumiu. João tinha descoberto pouco antes de ir a Lisboa e através de um amigo, a relação que ela tinha tido com amigo meu no inicio do namoro de ambos. Isto deixou-o bastante magoado e pálido de raiva porque era segunda vez que acontecia isto a ele.

Este meu amigo contou-me esta história que segundo o próprio protagonista era bastante infeliz. Tinha perdido um amigo - o João - em troco de uma aventura sexual ínvia. Durante aqueles três anos manteve o segredo de ter ido para a cama com a namorada do João, mas num momento estúpido e descuidado revelou o que tinha acontecido e a história acabou por chegar aos ouvidos deste.

Estes desencontros revelam o essencial da natureza humana. Somos capazes de amar e de ir a lua, mas simultaneamente detemos o poder absoluto de destruir tudo o que nos é mais precioso.

11/21/2009

Os motivos errados de gostar de alguém

Porque gostamos de alguém? É verdade que precisamos disso, mas porque aquela pessoa em especial? Há quem diga que é por terem gostos comuns, outros alegam que gostam de alguém porque essa pessoa é diferente de si, há que afirme que é pela beleza ou inteligência, ninguém o admite, mas também pode ser pelo dinheiro ou status. No Whatever Works, do Woody Allen, Larry David diz que amava a mulher pelos motivos errados, beleza e inteligência, na sua opinião isso não batia certo, não lhe parecia bem. Quando gostamos de alguém raramente é somente pelas suas qualidades. Também podemos amar pelos defeitos. Uma relação sólida vive disso, de admitirmos que a pessoa amada tem defeitos e vivemos bem com isso. E não é só viver bem com isso, por vezes, esses defeitos são condição e predicado para amarmos essa pessoa.

11/19/2009

Pequena nota sobre o amor...

O passado persegue-nos desde o infinito até o momento presente. Há quem diga que vivemos vidas passadas, que somos o ressoar de outras existências, de outras experiências, de outros mundos, quiçá, como se fossemos o eco de estranhas civilizações. Esta última passagem faz-me lembrar o amor. Quando sentimos que amamos alguém, o mundo parece que cessa de existir, o que mais almejamos e consubstanciar a pessoa amada, materializar a nossa paixão, enfim transformar o intangível em tangível. O universo de uma relação com paixão é único, como se fosse criado um universo paralelo, uma estranha civilização (devo estas palavras a Chico Buarque). E quando o amor acaba? Podemos fazer como José Saramago e apagar o nome de Isabel Nóbrega das dedicatórias, mas este gesto não torna a Isabel num espectro invisível, ela continua a existir, a coexistir, a respirar. O amor por uma mulher pode ser evanescente nos nossos corações, mas não é no pergaminho da nossa memória. Subsistem momentos, vivências, missivas ridículas, gestos ditirâmbicos. Parece-nos, de repente, que tudo aquilo foi um delírio, que não estávamos em nós próprios. A alacridade transforma-se em melancolia. O amor, por vezes, em ódio, ou então, num vilipêndio repulsivo.

11/16/2009

Depois do amor

Há uma passagem no 2666 que considero interessante, é no primeiro livro, e envolve Liz Norton e um dos seus amantes, não sei se o espanhol ou o francês. Estes quando iam a Londres satisfazer os seus desejos, deixavam a casa desarrumada, e Norton depois deles saírem tinha que arrumar a pequena confusão que eles deixavam para trás. O sexo por vezes tem destas coisas, pode ser óptimo, mas há sempre um depois, e é nestes momentos que, por vezes, percebemos que não temos intimidade nenhuma com nossa parceira ou parceiro. O diálogo depois do amor pode ser confrangedor, o silêncio também. Há um momento no Pulp Fiction sobre o silêncio. A Uma Thurman vira-se para John Trovalta e diz-lhe que é no silêncio, ou nos silêncios, que compreendemos que amamos alguém. Esta química no silêncio é fundamental na intimidade, duas pessoas podem ser óptimas conversadoras, mas se no silêncio, ou nos silêncios, não funcionarem, o amor não pode existir.

Tecnologia

Percebo pouco de tecnologia, mal sei configurar uma rede sem fios e nada sei de programação ou hardware. Isto é um problema no sentido dado que existe um cada vez maior distanciamento em quem produz tecnologia e quem a utiliza. Já se discute o papel e os limites da tecnologia há muito, mas nunca esta discussão foi tão pertinente. Aqui já não só falo da tecnologia que utilizamos no dia-a-dia, estou também a me referir a biotecnologia ou nanotecnologia, ciências que aos poucos vão se tornar mais comuns. A ficção cientifica já aborda os perigos destas tecnologias. A biotecnologia poderá ser o desafio mais comprometedor, lidar e manipular a vida traz problemas éticos e religiosos. Não se sabe quais são as consequências da manipulação genética ou da clonagem. Fazer o papel de Deus repugna muita gente, mas eu acredito, que o fundamental é estar informado. A sociedade civil deve acompanhar os desenvolvimentos da ciência, deve intervir, deve ponderar os dilemas passo a passo. Não podemos simplesmente repudiar a ciência. Quando Bush proibiu o uso de células estaminais no EUA, Singapura avançou logo na matéria, ou seja, é cada vez mais difícil limitar a ciência, deste modo, a melhor estratégia será apaziguar anacronismos e moderar ímpetos periclitantes.

11/15/2009

Medo

O medo paralisa, comprime o individuo. O medo trai, engana, destrói. Conheço homens que tem medo das mulheres, não é misoginia, é medo, um medo irracional de se confrontar com emoções que não se pode controlar, o medo de ser manipulado por essas emoções. A fragilidade gera medo. A pusilanimidade provoca uma tormenta de sentimentos que inferioriza, aniquila o ego, reduz o ser a uma escravidão. Ser escravo do receio de viver, de existir, recrudesce o medo tal forma que ficamos assoberbados. Certa noite estava desperto mas sonhei na escuridão que tinha sido preso. Já na prisão colocaram-me numa cela e perguntei ao guarda porque ali estava, a resposta foi que eu existia, e que ali cessava de existir. Há pessoas que vivem neste pesadelo, é um pesadelo premeditado, pois há pessoas que não querem existir. Querem ser espectros invisíveis. A invisibilidade pode ser um conforto, o bem-estar do anonimato é não sofrer. Podemos ser muito infelizes se existimos, mas se formos invisíveis, ninguém nos quer tocar, assim não há tanto sofrimento.

11/11/2009

Um episódio sobre literatura

Um dos episódios que mais marcou o meu secundário foi ter uma negativa a Português. A culpa não foi da professora, foi minha. Ela não me avaliou mal, eu, simplesmente, fui péssimo. Lembro-me mal do poema. Só me recordo das palavras querubim e onírico. Talvez fosse um poema do Pessoa, sinceramente, não me recordo. A negativa, no entanto, fez-me bem. Revoltou-me mas fez-me bem. Senti na pele o que é ser um iletrado. Como se ser iletrado fosse um pungente estigma, uma mácula, como se a minha honra dependesse de compreender aquele poema. Hoje já sei ler melhor, quando digo melhor, quero dizer um pouco melhor. Ainda não sei ler. Aprender a ler é um dos objectivos da minha vida, e, talvez, ainda demore anos a aprumar as minhas leituras. É uma tarefa que me dá prazer, mas que exige tempo e dedicação. Certa ocasião presenciei um tipo que pergunta a outro se este já tinha lido O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queiroz, o outro sentiu-se indignado com a questão e quase que aquilo desancava em violência. Provavelmente nenhum dos dois teria efectivamente lido o texto de Eça de Queiroz, uns meses antes esteve em exibição o filme que se baseava nesse livro, mas mesmo assim houve indignação. Como se fosse óbvio ter lido o Crime do Padre Amado, e fosse um insulto não ter lido aquele livro. Eu percebo que vivemos na era das aparências, mas este episódio marcou-me. Será que no rodopio constante da nossa contemporaneidade temos tempo para efectivamente aprender a ler? Será que há tempo para reflectirmos sobre o que lemos? A literatura é uma mais-valia (eu sou economista) nos nossos dias? Para aqueles fulanos, sicranos e beltranos que ululam por aí, parece-me que não. A literatura ocupa tempo útil, a literatura não dilata o espírito, comprime-o. É um exercício vão, mas mesmo assim todos nós lemos e relemos de tudo. Todos nós lemos tudo e sabemos tudo. Não conheço ninguém que não leia de tudo, mas a maior parte dessa chusma parece-me semi-analfabeta.È tão difícil encontrar pessoas que falem sobre livros...

Princípio de Incerteza

Einstein acreditava que Deus não jogava aos dados. Tinha uma visão do universo unificada, dado que, se temos um Deus criador de todas as coisas, as leis que regem a gravidade são em tudo semelhantes as que regem o nosso pensamento. Einstein quis encontrar esta teoria unificadora, que permitisse explicar qualquer fenómeno físico, mas não o conseguiu. Hoje esta ideia está ultrapassada, a mecânica quântica implica incerteza, ou incertezas. Na biologia sabemos que a evolução é um processo ocasional, decorrente de pequenas alterações aleatórias que ocorrem durante a mitose ou devido a uma mutação. Sabemos perfeitamente que a razão não determina todos os nossos actos. Ou seja, a ciência moderna não nos dá certezas, dá-nos acasos, incertezas, e imprevisibilidade. No Iluminismo estávamos convictos que razão e ciência combinavam-se na perfeição, éramos positivistas, poderíamos sem sombra de dúvida resolver as maleitas do mundo, porque tínhamos o processo cientifico para nos ajudar. Hoje não existe essa convicção, a ciência dá-nos um caminho, mas existem perigos, caminhos sinuosos que nos podem conduzir a destruição. Para evitar passos periclitantes temos que ser prudentes e exigentes.

11/10/2009

Ostracizar

No outro dia disseram-me que ninguém gostava de determinado indivíduo, acrescentaram que este era um infeliz, e, claro, esquisito. Não sei se foi por esta ordem, não sei se me disseram primeiro que essa pessoa era infeliz e esquisita, e depois acrescentaram que ninguém gostava dela. Pareceu-me, no entanto, uma sentença atroz dizer que essa pessoa era um infeliz. Como se não interessasse o estado de espírito dessa pessoa, ela pode ser feliz e contente, pode ter as suas limitações como toda a gente, mas o que importa era que ele era infeliz, como a sua infelicidade fosse imposta por todos. Essa infelicidade pode nem sequer existir, essa pessoa pode se sentir bem consigo própria, mas isso pouco interessa, sendo esquisita, e ninguém gostando dela, ela não pode sorrir. Esta observação fez-me pensar. O que pretendia o meu interlocutor, quando proferiu a a medonha sentença?  Primeiro, pensei que este, provavelmente, o que pretendia, era que eu homologasse a sentença, confirmando aquele juízo. Eu respondi como as regras, disse que achava o mesmo, e até referi um episódio que corroborava a infelicidade do indivíduo. Depois pensei um pouco melhor, será que era só isto que o meu interlocutor pretendia? Cheguei então a uma conclusão diferente, o que ele queria não era que eu confirmasse a sua opinião sobre aquela pessoa, não, não era isso, aquela nossa conversa foi um aviso a minha navegação. Eu simplesmente não me devo aproximar daquele «infeliz»,   tenho de ser como toda a gente, que já tem uma opinião formada, e sendo o indivíduo infeliz, e esquisito, não poderei, obviamente, gostar dele. Deste modo devo-me afastar dele. Pode-se dizer que aquela conversa toda serviu, apenas, para ostracizar uma pessoa. Lembro-me de Sócrates, o filósofo que teve duas escolhas, uma era sair de Atenas, ou seja, ser ostracizado, e outra, como todos nós sabemos, envolvia cicuta. Sócrates preferiu a cicuta.

4/09/2009

Memórias

Tenho má memória. Esqueço-me das coisas com muita facilidade. São nomes, caras, momentos que se perdem nos meandros do meu hipotálamo. Este pequeno órgão, que se encontra nas entranhas do cérebro, bem lá dentro e longe do córtex frontal, pensa-se que é essencial para preservar memórias, também é fundamental noutras funções fisiológicas essenciais, e é muito importante nas reacções emocionais. O meu hipotálamo funciona mal, muitas vezes sou obrigado a sorrir a perfeitos estranhos. Sem sabendo com quem estou a falar, uso alguns truques para iludir os meus interlocutores de forma que estes não se apercebam que simplesmente os esqueci. È muita falta de educação não se lembrar de uma pessoa, parece que faço de propósito, quando simplesmente e provavelmente, trata-se de um processo químico que ocorre no meu hipotálamo. Devo dizer, no entanto, que não me esqueço de tudo, a minha falta de memória é cruelmente selectiva. Lembro-me perfeitamente dos bons momentos, e isso por vezes remete-me para uma nostalgia doentia. Fico apático por lembrar de certos momentos, de certas pessoas, de episódios que não voltarão a se repetir.
Ter uma má memória é-me essencial para uma ter uma certa higiene mental. No mundo social é suicida não se lembrar das coisas e pessoas, mas na privacidade e na intimidade pode ser muito útil ter má memória. Existe uma sensação de frescura quando fazemos as coisas. Há mais prazer em tudo. Ter má memória permite ter relações mais sólidas porque atenua a rotina. Ter má memória também é útil quando o nosso património emocional está de rastos. È óptimo não se lembrar daquelas pessoas que não gostamos, ou que já gostamos muito e não gostamos mais. Ter má memória salvou-me a vida muitas vezes.